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Biografias

 

Eugenio Sigaud

1889-1979

Arquiteto, pintor e gravador. Sigaud é um dos fundadores do Núcleo Bernadelli, que representou importante frente de renovação na parte carioca. Fundado em 1931, quando o Rio de Janeiro ainda permanecia indiferente aos ventos modernistas, o Núcleo surgiu de um grupo de alunos da Escola Nacional de Belas Artes com o objetivo, nas palavras do crítico e historiador de arte Frederico Morais, de "democratizar e renovar o ensino de arte, introduzir modificações no Regulamento do Salão e abrir novos espaços para artistas que estavam aparecendo". Caracterizado por um postura estética e politicamente moderada, o Núcleo teve em Sigaud uma exceção sob os dois aspecto, tendo sido ele e Campoflorito os únicos do grupo que se dedicaram mais sistematicamente a temas de fundo social. Quirino Campoflorito divide a obra pictórica de Sigaud em quatro etapas:1921/24 estudos; 1924/35, fase de pintura objetiva; 1935/37, pesquisa de técnicas e de materiais para pintura mural e de cavalete; e 1937/45 (mas estendendo-se menos marcadamente até o final de uma vida), fase de inspiração em assuntos proletários, especialmente operários da construção civil. A chamada fase objetiva caracteriza-se, sendo Frederico Morais, por um grande simbolismo grandiloqüente, com musculosos Lúciferes voadores (como a sua obra O Eco das Montanhas da América) onde se detecta a influência de Hodler, e, na temática, de Seeling. Estes mesmos temas ressurgirão em décadas posteriores, misturados a outros de natureza social. Foi no Período de 1935/37 que o artista dedicou-se mais intensamente ao estudo de murais, tendo realizado várias obras e se empenhando na defesa do muralismo em textos para o mensário Belas Artes. Escreveu em 1935: "A nova arquitetura criou com o concreto armado, grandes planos internos e externos que, necessariamente, obrigam o arquiteto a aproveitá-los para os complementos dos edifícios. (...) Não é perdoável que nossos pintores deixam ir protelando um movimento educativo dos artistas e do povo nesse sentido (o da decoração mural) pois é necessário realizar esta campanha para que o público se eduque e compreenda que a beleza não é tão onerosa como julgam. (...) Como poderíamos conhecer o esplendor de outras eras, as lutas pelo sonho social e o místico, sem as artes?. É no período de 1937/45 que a sua preocupação constante com temas sociais se traduz com maior variedade numa busca contínua de novos ângulos e aspectos do trabalho humismo. Nas palavras de Frederico Morais, "na cidade, não se restringiu a mostrar o trabalhador nos andaimes dos edifícios, mostrou-o também na rua, em meio ao tráfico trepidante, em meio a usinas, nas ferrovias, pontes, estaleiros, cais e depois, passando da cidade para o campo, mostra-o em plantações de café, musculoso, forte e negro, ou no litoral, entre sai e saibros." O crítico destaca, entre os trabalhos dessa fase, o iludo Os Saibeiros. O mesmo Frederico Morais define o estilo que foi se forjando ao longo da carreira de Sigaud, e que o pintor não mais largaria, como "viril, algo rude e tosco na energia do volumes, na ousadia das cores - vermelhos metálicos que queimam como o fogo dos altos fornos e dos maçaricos - na largueza de um desenho trepilante e nervoso, na opção pelos primeiros planos que dinamizam e dramatizam a composição". Outros críticos detectam nessas suas características uma forte veia expressionista. Tecnicamente, o pintor Marca-se por uma grande versabilidade, sendo um dos raros pintores brasileiros a utilizar, lado a lado, o óleo, a tempera e a eucáustica, além da aquarela e do guache. Percebe-se em sua pintura influência de Siqueiros, Orozco, Permeke, Gromaire, Leger, Hodler e, por vezes, Seelinger. Mas foi do professor modesto Brocos, que sempre defendeu na ENBA uma arte marcadamente brasileira e social, e de sua própria militância e engajadamente político, que o artista assimilou a sua proximidade e intimidade com a realidade brasileira, talvez a característica mais típica de sua obra. Nascido no interior do Rio de Janeiro, muda-se com a família, em 1904, para Belo Horizonte, onde diplomou-se engelheiro agrimensor e agrônomo (1920). Em 1921, retornou para o Rio de Janeiro e, na antiga Escola Nacional de Belas Artes, freqüentou o Curso Livre de Desenho do Professor Modesto Brocos. Nessa mesma escola diplomou-se como engenheiro arquiteto (1932), profissão que chegou a exercer ao lado da pintura. Começou a pintar quadros em 1921, tendo se dedicado também ao muralismo, como foi dito à ilustração de livros e jornais e, por pouco tempo, à gravura a ponta-seca. Embora fosse neto nobres franceses, e tivesse, entre os nove irmão, um bispo da linha conservadora da igreja, Sigaud sempre um posicionamento político de esquerda, tendo declarado ao crítico Frederico Morais: "Sou comunista. Engenheiro, sempre liderei com operários, o que explica a escolha dos meus temas. Sempre tive consciência do Papel social da arte. Sempre fiz política. A meu ver, toda a parte serve aos interesses políticos. A liberdade de criação, porém, é fundamental". Sobre sua pintura, afirmou, em 1972, ... "ela nunca foi um ato gratuito, nem mesmo minha arquitetura. É, ante de tudo, uma atitude consciente e firme, uma finalidade com objetivos artísticos, políticos e sociais. Celebro com ela, especialmente, a magnitude e a grandezas do trabalho humilde do operário, este trabalhador anônimo em todos os setores da grandeza da Pátria". Apesar de seus temas populares, Sigaud expôs e competiu pouco, tendo sido recusado várias vezes no salão. Como possíveis razões disso, o artista aponta suas temáticas sociais e sua técnica pictórica ousada. Seus trabalhos chegaram a ser recusados pelo sempre moderado Núcleo Bernadelli, "talvez pelas deformações e exageros da figura", diz o artista. Transpondo esses obstáculos, o pintor chegou a expor nas seguintes coletivas: II Salão da Primavera - RJ (1924); II Salão do Instituto de Belas Artes do Rio Grande do Sul, Porto Alegre (1940), obtendo Medalha de Bronze; Salão Nacional de Belas Artes - RJ e Medalha de Bronze (1936) e Medalha de Prata (1942); Mostra de Auto Retratos no Museu Nacional de Belas Artes - RJ (1944; Salão da Sociedade Brasileira de Belas Artes - RJ (1949 a 1952); I Bienal de São Paulo (1951); I Exposição dos Artistas Modernos Independentes - RJ (1961) e Salão Nacional de Arte Moderna - RJ (1952 e 1967). Em 1972, a Galeria da Praça - RJ, presta-lhe uma homenagem, realizando uma exposição retrospectiva de seus trabalhos. No exterior, expõe no Museu Riverside, Nova York, em 1939. Salão de sua autoria os murais da Catedral de Jacarezinho, no Paraná; do Edifício do Sindicato dos Despachantes do Rio de Janeiro; e os vitrais do paravento da Igreja de São Jorge, no Rio de Janeiro. Possuem obras de sua autoria o Museu Nacional de Belas Artes - Rio de Janeiro; o Museu de Moçambique, em Maputo; e a Universidade Obrera do México, além de numerosos colecionadores particulares, no Brasil e no exterior.

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